UM HOMEM, um cavalo CADEJO da Maior e uma história de Ouro de Bocal e Freio

Estanislau Figueira, olho clínico para campeões, conta como foi a vitória no Freio de Ouro 2013, com Cadejo da Maior

História. Ímpar. De homens e cavalos. Uma história fina, cuja fineza empolga. De orgulho, cuja humildade permite. Tem os requintes do ouro, de freio e bocal, chancelada na pista de Esteio. Evocando quem sabe os míticos charruas dos cavalos tranquilos, espertos e, por vezes, até ariscos, de flanco harmônico, funcional para a lida de campo, “prá todo o serviço”, como diz o gaúcho. Remetendo à vida selvagem dos séculos que se sucederam à tropa que fincou os cascos nas Américas, transportada pelas naus de Cristóvão Colombo para a Ilha de Santo Domingo, lá em 1493. Ginetes com objetivo definido: iniciar a colonização.

Lembrei na hora e, acho, não poderia ser diferente. Do gaúcho, do cavalo, do barreal da pista de Esteio em anos passados. Dos histórico La Inernada Hornero, dos BTs. Das confirmações. Até da música lembrei, ouvindo o Figueira fazer seu relato. Afinal, canta o Joca Martins que pode ser pelo Rio Grande, São Paulo, Paraná, enfim, no Uruguai, ou na Argentina, qualquer lugar é querência, se houver cavalo crioulo.

Esse resgate serve como preâmbulo para falar do zaino colorado revelado pelo olho clínico do santanense Estanislau Figueira, coordenador regional da Ourofino. O garanhão, nascido em 17 de setembro de 2005, tem 1,42 de altura, bem aprumado, firme de lombo, sem deixar a leveza de frente, levou o Bocal de Ouro e o Freio de Ouro.

Afixo OF, Cadejo da Maior, da Cabanha Santo Izidro/Ourofino, foi uma aposta vencedora de Figueira.

Ele próprio contou alguns dos principais episódios para nossa bancada, no programa Conversa de Fim de Tarde, que comando na RCC FM. Por isso, a diferença no texto, já que nunca antes havia me permitido escrever com uso da primeira pessoa em determinados trechos, o que ocorre agora, pela riqueza da história que conto.

“O afixo OF de Cadejo da Maior vem de Ourofino, empresa 100% nacional, tem 26 anos e registra R$ 4 bilhões em seu valor de avaliação atual, com faturamento orçado atualmente em R$ 700 milhões e vamos passar disso. É a terceira maior empresa em faturamento no Brasil, primeira nacional, atrás apenas da Pfizer e MSD, atuando nas áreas de saúde animal, genética e defensivos”. Estanislau Figueira, santanense, afirma que teve o orgulho de desbravar o Rio Grande e o Brasil pela empresa e, mais ainda, 3 anos no México.

Figueira fez um breve histórico da Ourofino, que hoje está no mundo inteiro, inclusive em Shangai – onde mantém escritórios para compra de matéria-prima. “A Ourofino tem matéria-prima na hora para o que for interessante para a atividade agrícola e pecuária” – resume. O investimento na raça crioula se deu, mais do que especificamente pela presença de Figueira – como o primeiro gerente, e sobretudo, da resposta do Rio Grande do Sul – que foi o primeiro Estado a abraçar a empresa (há 26 anos, 60% do que a Ourofino produzia era consumido pelo Rio Grande do Sul, considerando-se que o Estado ainda é a regional mais importante da empresa, consumindo, hoje, 13% a 14% da produção da Ouforino) – e do agradecimento do principal acionista da empresa, Norival Bonamichi.

“Eu quero investir lá, mas comprar uma fazenda… seria mais um fazendeiro. Vamos comprar cavalo crioulo, que é um símbolo do Rio Grande, e vamos permanecer nesse meio, pois todo o cioulista é criador de gado” – disse Bonamichi a Figueira, segundo a narrativa do santanense.

“Ele pensou em fazer o projeto, me chamou e conversamos, comecei as tratativas com um parceiro nosso. Não andei leiloando nada, pois foi o único parceiro que me foi apresentado naquele momento e nós ficamos com ele. Até teve um pessoal de Uruguaiana perguntando porque não havíamos feito com eles, e eu disse que poderíamos fazer outro tipo de parceria. Acho que se mantenho um negócio contigo, é contigo. Se faço com outro, é com outro. Eu penso assim. Do contrário, se perde a credibilidade. Então, fechamos com os Mascarnhas, ali de Julio de Castilhos-Santa Maria, que são fortes na região, com mais de 1.500 éguas e mais de 3.000 equinos. Iniciamos a pareceria em 2007, em janeiro, e oficializamos em setembro, pois é complexo em termos de empresa. Tem que seguir ritos, aprovações. Em setembro de 2007, saímos a comprar cobertura. Pensamos em 20 éguas, mas começamos com 60, e ele tinha 25 animais tabulados e já absorvemos. Passamos a 80 e poucos animais no primeiro ano, compramos 60 coberturas, investindo R$ 500 mil nesse primeiro ano dos principais cavalos, pagamos, à época, R$ 5, R$ 10, R$ 15 mil. Quando fui em março, conversar, sugeri que comprássemos um cavalo, um potro top, que iria nos aliviar um pouco, vamos vender cobertura e comprar” – destacou.

Figueira procurou informações sobre o assunto e foi informado que a Cabanha Maior dispunha de dois potros, aconselhado de que qualquer dos dois seria excelente aquisição. “Falei com o filho do Marcelo Silva e ele disse que intermediaria o negócio, falando com o André. Tinha o Buenaço, um pouco mais velho, e o Cadejo, com 2,5 anos na época. Não foi pelo preço maior que ele pediu, que não ficamos com o Buenaço, pois teve gente de Alegrete – em cuja exposição comecei a conversação do negócio – que nos disse: o Cadejo é um cavalo mais leve e mais dócil. Qualquer dos dois seria excelente, pelas indicações, tanto é que o Buenaço foi campeão de morfologia e o Cadejo o reservado. Compramos o Cadejo, na época, por R$ 350 mil, mais algumas despesas, chegando a nos custar R$ 400 mil. Aí, diziam que o Figueira enloqueceu, ‘vai quebrar a Ourofino, comprando cavalo a R$ 400 mil’. Nosso cabanheiro, Guilherme Joureg, foi quem indicou o cavalo e disse: ‘seu Figueira, fique tranquilo que nós vamos chegar no Freio para ganhar’. Ele aprontou o cavalo, pois ficou 5 anos com o Cadejo. Eu disse para o Bonamichi que tinha certeza que com a estrela dele iríamos chegar ao Freio de Ouro e ganhar” – contou Figueira. 

“A parceria Santo Izidro/Ourofino tem plantel de 600 animais, cavalos já nascidos, que vão correr ano que vem. Temos um cavalo 8 em morfologia, já. O Cadejo é privilegiado, tem 8.8” – relata Figueira.

Vale ressaltar que a morfologia é a avaliação do padrão racial, enquadramento do animal, padrões seletivos, equilíbrio, frente leve, linha superior, relevo muscular, com todo o conjunto bem sustentado sobre bons aprumos. A pontuação vai de zero a dez. Detalhe: não existe 10 até hoje.

É a primeira etapa de avaliação do Freio de Ouro.

A segunda é a funcional – mais competitiva, que avalia o desempenho do animal em atividades derivadas das lidas campeiras. São dois os elementos julgados, a andadura, em que se avalia o tranco, o trote e o galope. Nela, são observadas a comodidade, avanço, equilíbrio e o alinhamento de tipicidade, com pontuação total de zero a quinze, valendo 0 a 3 para o tranco, zero a 8 para trote e zero a 4 para galope. O trote valoriza mais, pois é mais usado, sobretudo nas lojuras. Também são avaliadas a figura, o volteio – volta sobre as patas (360 graus sobre o próprio corpo para um lado e para outro) e a esbarrada ao fim de 20 metros, com a sentada.Aí, vem a lida na mangueira, com o aparte (separação de dois novilhos), o tempo (45 segundos mantendo um novilho afastado do outro) e a pechada. Aí, vem a corrida da paleteada, em que são avaliadas a aptidão para a lida campeira, a velocidade, força, enfim. “O Buenaço tem 9.2 na morfologia e vai correr ano que vem, porque não participou na funcional. Está com o mesmo ginete do Cadejo, o Daniel Teixeira” – relata Figueira, que receberá uma homenagem do Poder Legislativo santanense, um voto de congratulações proposto pelo vereador Gilbert Xepa Gisler (PDT).

Estanislau Figueira salienta que Cadejo é um cavalo privilegiado em morfologia (8.8) e uma função espetacular. “Ganhou a classificatória no Paraná, correu o Bocal e ganhou. Depois do Bocal, o Daniel me disse, já no Freio, que se o Cadejo fizesse uma boa esbarrada, ganharíamos. Era prova difícil, pois chovia muito e o lamaçal nivela por baixo. Disse que era difícil e o cavalo fez 17.5 na esbarrada (o máximo é 20). Na primeira condução do boi na paleteada, já era campeão, a segunda não precisava nem correr. Na mangueira, fez o aparte perfeito” – salientou Estanislau Figueira, ponderando que o conjunto (ginete e cavalo) é essencial. 

Figueira foi o primeiro gerente da Ouro Fino e priva da amizade de Bonamicchi, em função disso.

Hoje, a empresa tem 40 gerentes, com diversas representações pelo mundo e, de início, houve estranheza em relação ao investimento em cavalo crioulo. A vitória no Freio consolidou uma posição de investimentos e, sem dúvidas, o cavalo crioulo associado à marca Ouro Fino e vice-versa.

A pressão ocorreu, pois no meio corporativo é natural o pronto retorno, o que é diferente quando se trata com produto e, especialmente, com animais.

“Digo a eles: vamos ter paciência, pressionaram, e devido aos resultados serem morosos, como tudo na pecuária, houve a ideia de diminuir, quando fizeram o inventário da empresa, com 586 animais, disseram que era para reduzir. Tanto o nelore – animais de pista, de ponta – e os cavalos crioulos. Usei a experiência. Se o cavalo não ganhasse, seria um terror aguentar a pressão. Cadejo tinha que ganhar. Em novembro ou dezembro, pediram para vender o cavalo. Tive uma proposta de R$ 1 milhão. Disse que não, pois havia a prova. Fui vendendo a ideia para segurar o cavalo, disse que ele correria em março no Paraná e dobraria o preço. Foi e ganhou. Tive outra proposta lá, R$ 2 milhões. Liguei e informei. Decidiram correr o Bocal primeiro. Aí começou a mudar a situação. Cadejo ganha o Bocal e um rapaz que fez uma pressão bárbara, oferecendo R$ 3 milhões – depois comprou uma cota do cavalo. Quase vendi, balancei. Telefonei e disseram: ‘não, não fala mais em venda. Não vamos vender mais, pois o cavalo é simpático, alegre, que pisa como se fosse em pluma’. Fomos para o leilão da Ouro Fino, vendemos 40 éguas e colocamos à venda 30% do cavalo. Como estava em alta, antes do Freio, decidi garantir. Vendemos 6 cotas de 5%, cada cota previmos entre R$ 280 e R$ 330 mil. Ficou cada uma em R$ 280 mil. Saiu R$ 1.680 milhão naquela noite, 30% do cavalo, avaliado em torno de R$ 5 milhões. Entrou um rapaz do Chile, da família mais rica de lá e comprou uma cota. Dois amigos do Norival, de São Paulo, também compraram. Não conhecem e vão iniciar criatório. Um planta 350 mil hectares e outro é dono de banco” – narrou.

Cadejo da Maior, após o Freio de Ouro, foi valorizado.

A Ourofino/Santo Izidro é dona de 60% do cavalo, 30% foi vendido para seis acionistas e 10% foi presenteado a Figueira por Norival Bonamichi.

“Quando comprei o potro me aconselhei com quatro pessoas que conhecem. Com as vitórias e a valorização, Cadejo foi um divisor de água. A entrada no cavalo crioulo veio com crescimento no mercado veterinário, chegamos a 35% no primeiro ano, neste ano chegamos a 30%. O cavalo foi um divisor de água e o Norival quer que eu compre um potro ou dois para disputar daqui a dois e três anos. Ele quer cavalo de 8,5 e não tem 15 animais no Estado com morfologia acima de 8,5”- comentou.

 

Notícias Relacionadas

Os comentários são moderados. Para serem aceitos o cadastro do usuário deve estar completo. Não serão publicados textos ofensivos. A empresa jornalística não se responsabiliza pelas manifestações dos internautas.

Deixe uma resposta

Você deve estar Logando para postar um comentário.