Carreiras que vão de vento em popa

Ronaldo Custódio, da Eletrosul, é autodidata e referência em energia eólica

Os ventos favoráveis à energia eólica no Brasil estão criando uma forte demanda por executivos e abrindo novas oportunidades. Essa fonte de energia renovável já é a segunda mais competitiva no País, atrás apenas da hidrelétrica. Em 2012, a capacidade instalada nacional alcançou 2,5 gigawatts (GW), um crescimento de 73% em relação a 2011. Hoje, existem 115 parques geradores operando e 231 em processo de construção, que, somados, representarão 8,8 GW em 2017. As regiões Nordeste e Sul concentram o maior volume de negócios.

Atualmente, a energia eólica representa apenas 2% da nossa matriz elétrica, mas essa participação está crescendo com rapidez e deve chegar a 5,5% em 2017, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Isso fará o Brasil saltar da 16ª para a 7ª ou 8ª posição no ranking internacional, com reflexos positivos no mercado de trabalho para profissionais especializados.

Na alta gerência, as contratações se concentram em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde estão as matrizes das empresas, e em menor número em Recife, Fortaleza, Salvador e Natal. No nível de média gerência e operacional, há forte procura por profissionais no Nordeste e no Sul, onde estão os parques geradores. “Em algumas situações já há escassez de mão de obra”, diz Elbia Melo, presidente-executiva da Abeeólica.

A formação básica normalmente requerida do executivo é em engenharia elétrica, mecânica ou de produção, mas há oportunidades para administradores e economistas. Boa parte dos contratados tem pós-graduação em finanças e gestão. É importante possuir um perfil de líder, ter conhecimentos de legislação e do mercado internacional. “Dificilmente esses executivos conquistam seus postos antes de completar 35 anos, pois é preciso entender bem da área técnica”, assinala.

“É a energia da vez”, diz o diretor da empresa gaúcha Renobrax e presidente do Sindicato das Empresas de Energia Eólica do Rio Grande do Sul, Ricardo Rosito. “Temos hoje no Brasil um mercado que cresce de maneira abrupta e gera uma série de oportunidades não só para executivos, como também para empresários de setores diversos, como na construção civil e na indústria de componentes para aerogeradores – por exemplo, fabricantes de carenagens de fibra de vidro”. O mercado é grande em termos monetários, mas tem poucos fornecedores, o que faz da conduta eticamente ilibada uma qualidade indispensável ao gestor, destaca: “Se a pessoa tiver algum problema, ‘queima o filme’, porque todo mundo se conhece”.

“Essa é uma indústria nova, que atua com produtos de alta tecnologia, buscando índices de eficiência operacional dentro de conceitos modernos de fabricação,” diz Marcelo Braga, sócio-diretor da Search, empresa de seleção de executivos. “Por isso, o profissional precisa estar à frente em termos de inovação; não tem de ser o pesquisador, mas alguém que entenda um pouco dessa questão”. Em 2012, a Search intermediou a contratação de 30 gestores para o setor, a maioria para atuar em São Paulo. Mais de 60% deles vieram das indústrias automotiva e de bens de capital. Houve processos de seleção nas áreas de qualidade, manufatura, infraestrutura, finanças e cadeia de suprimentos. “A minha percepção é que em 2014, com as empresas já bem posicionadas, devemos ter mais contratações no meio da pirâmide e menos no topo das corporações”, afirma.

A escassez de cursos universitários com currículos voltados para energia eólica é um dos obstáculos que dificultam a contratação de executivos. Essa lacuna vem sendo preenchida com programas de qualificação dentro das próprias empresas. É o que ocorre, por exemplo, na Impsa, multinacional de origem argentina que fabrica aerogeradores e desenvolve parques eólicos. “Temos um programa permanente de treinamento”, diz o vice-presidente executivo da corporação, José Luis Menghini. Para ele, os headhunters são bastante úteis na contratação, mas cada caso requer um procedimento específico: “Os jovens profissionais, especialmente no nível de média gerência, usam cada vez mais as redes sociais, portanto elas são ferramentas que adotamos”.

Menghini observa que o conhecimento de idiomas estrangeiros é muito útil para se comunicar com engenheiros e técnicos de outros países: “Na parte de compras, todas as línguas são importantes, até o russo e o mandarim”. Outro atributo fundamental é a mobilidade. É preciso ter disposição para viajar. “Não conheço nenhum parque eólico que fique perto da avenida Paulista”, brinca. Sintonia com a filosofia da sustentabilidade e com os temas sociais também são importantes, pois os executivos têm relacionamento frequente com as comunidades onde os parques eólicos se localizam. Na avaliação dele, o setor está a cada dia mais maduro: “Algumas empresas com perfil aventureiro eventualmente vão se retirar do mercado, mas novos e mais sérios ‘players’ vão continuar se aproximando do Brasil, pois o país é a grande força motriz da América do Sul”.

O engenheiro eletricista alagoano Neumário Vieira trabalha há um ano na fábrica de aerogeradores da Impsa, localizada no complexo industrial portuário de Suape, em Pernambuco. Ele foi indicado para o cargo de gestor do departamento de gerenciamento de contratos por um headhunter e também por um colega que atua no braço argentino da empresa. Constam em seu currículo experiências como gerente de projetos em pequenas centrais hidrelétricas e em termelétricas a biomassa e gás natural, bem como os títulos de bacharel em direito e pós-graduado em administração. “Como este é um setor novo, é preciso ter humildade para aprender e flexibilidade para desaprender um pouco”, comenta. “Por exemplo: no mercado de grandes hidrelétricas, o ‘timing’ dos projetos chega a dez anos, mas num parque eólico leva-se em média 16 meses da assinatura do contrato ao funcionamento da primeira máquina”.

Uma área de conhecimento com grande procura é a de profissionais de logística. Grandes equipamentos, como pás eólicas com mais de 40 metros, precisam ser transportados em segurança por via marítima e rodoviária, o que requer planejamento. Especialistas em qualidade também são bastante requisitados para acompanhar a fabricação de equipamentos, construção, ensaios e testes. Outros profissionais em alta são biólogos, químicos e arqueólogos, necessários para avaliações no ambiente onde serão construídos os parques geradores.

O diretor de engenharia e operação da Eletrosul, Ronaldo Custódio, é referência em energia eólica no Brasil. Ele é um dos idealizadores do Atlas Eólico do Rio Grande do Sul, publicado em 2002, e sete anos depois lançou o primeiro livro técnico em português sobre o assunto. “Sempre gostei do vento”, conta o engenheiro, que passou a infância empinando pipa em Santana do Livramento, município gaúcho onde a empresa implantou há dois anos seu primeiro complexo eólico, Cerro Chato. “Tive formação autodidata porque era difícil conseguir material – os principais estudos vinham da Alemanha e da Dinamarca”, diz. “Resolvi estudar eólica por curiosidade profissional e um pouco de visão de futuro, pensando: por onde é que o mundo vai caminhar, para onde eu posso caminhar profissionalmente?”. Os melhores ventos do Brasil estão nos Estados nordestinos e no extremo sul, ensina. No litoral sul gaúcho, a regularidade deles é até maior que em alguns locais do Nordeste.

Em março, a Eletrosul firmou convênio com o município de Rio Grande para formação de um centro de excelência em energia eólica e assim suprir a carência por profissionais da área. Por enquanto, esse trabalho tem sido realizado internamente. Ronaldo Custódio colabora com a formação do corpo técnico da empresa, que está se consolidando como a maior estatal eólica do Brasil. No primeiro semestre de 2014, quando todos os seus parques estiverem em funcionamento, a Eletrosul produzirá 570 MW de energia com a força dos ventos, equivalentes a cerca de um terço da geração eólica do país. Para o engenheiro, as principais competências que o profissional da área deve ter são formação sólida, capacidade de gestão, iniciativa e curiosidade. “Tem que estudar”, enfatiza. “Há muita gente falando do assunto sem entender”. Ele acredita que, em alguns anos, o Brasil vai se tornar exportador de recursos humanos em energia eólica.

 

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